segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"costuras que ostentaram nódulos" - Cid Nader



http://www.cinequanon.art.br/gramado_detalhe.php?id=1010&id_festival=54

A Vida Plural de Layka, de Neco Tabosa. 2012 • cor • 35 mm / 15 min. (FOTO 22)


Antes de mais nada, além de normalmente ser muito prazeroso ver curtas ou longas vindo de Pernambuco (valendo lembrar sempre que aquela Recife efervescente culturalmente já há uns bons muitos anos parece – ao menos no cinema – não querer abandonar o posto da que mais produz sem deixar a peteca cair), é preciso notar o quanto eles transitam, como tratam, trabalham, bem com um bem-vindo despudoramento, fazendo dessas “normalidades” humanas, quase sempre execradas pela maioria, material farto para muitas de suas artes: ao menos o pessoal do cinema é assim. E Neco Taborda (?!) não deixou de modo algum escapar a oportunidade – plantada por ele mesmo – de trazer, novamente com um curta bem realizado de lá, essa questão da sexualidade jogada na cara sem disfarces (sem disfarces hipócritas de comportamento, mas com os disfarces comuns e naturais à técnica do fazer cinema), como fator a ser trazido à tona sempre: já que é da condição dos bichos, e funciona bem demais quando tratado com esperteza. 



Esse A Vida Plural de Layka, para além de ser plural nas demonstrações de afetos e desejos (dos mais variados quilates), para além de ser plural nos modos de discursos oralizados (que percorrem todos os trechos do filme como a banda sonora explicadora e indispensável aos relatado pelas imagens), é também pluralíssimo nas maneiras de confecção pensadas. Curta-metragem que se nutre de variadas formas de animação (desde o “singelo” 2D do desenho, passando pelo 3D do stop-motion, e ainda com intervenções texturais aplicadas por digitalização – como a que é inserida sobre a pele de um homem, por exemplo), caminha por alternâncias estéticas que propõem a concretização do andamento variando na forma como as essências narradas (e mostradas) variam incessantemente. 



E tome discurso marginal (há inclusive um grito citando a vocação natural de nosso cinema contra o bom comportamento institucional), e tome corpos nus e insinuações de bom calibre representando sensações de prazer, e tome confissões “anormais”. O diretor soube de forma competente manter o ritmo pelo alinhavamento grosso entre os saltos de cenários e fatos, com o discurso sujo e... jocoso (?), deixando não um tecido liso e bem passado, mas costuras que ostentaram nódulos: ritmo que se mostrou persistente e contínuo, mas que causou solavancos, justamente para se perceber de forma bastante clara que não se tratava de roupa de festa a confeccionada ali. Por Cid Nader

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